

Uma paixão que começou muito antes da Buckfast
A minha ligação às abelhas começou ainda na adolescência, na aldeia de Anjos, em Vieira do Minho, onde desde muito cedo nasceu uma verdadeira paixão por estes extraordinários seres.
Naquela época, a apicultura era muito diferente da que conhecemos hoje. As abelhas eram mantidas, muitas vezes, nos tradicionais cortiços, estruturas simples que faziam parte da apicultura rural e que permitiam um contacto muito próximo com a colónia e com a natureza.
Foi aí, entre os cortiços e as primeiras experiências com abelhas, que começou uma relação que, muitos anos mais tarde, viria a ganhar uma nova dimensão.
A vida profissional levou-me entretanto por outro caminho.
Ingressei na Guarda Nacional Republicana, instituição onde permaneci durante 31 anos. Durante grande parte desse percurso exerci funções de comando, experiência que me proporcionou uma forte cultura de responsabilidade, disciplina, organização e tomada de decisão.
Depois da passagem à reserva e, posteriormente, à reforma, iniciei uma nova etapa da minha vida profissional, dedicando-me à averiguação de sinistros, atividade que exerço desde 2010 e que me permitiu continuar ligado ao mundo profissional, agora numa área completamente diferente.
Foi também nesta fase da vida que, já na Chamusca, retomei a atividade apícola e a paixão pelas abelhas que me acompanhava desde a adolescência. Aquela ligação que havia começado muitos anos antes, nos velhos cortiços de Anjos, em Vieira do Minho, renasceu agora de uma forma diferente: não apenas como uma recordação do passado, mas como um novo desafio e uma paixão que viria a crescer progressivamente.
Voltei às abelhas.
Desta vez, não por necessidade, mas por paixão e como hobby.
O encontro que mudou o caminho
Durante os primeiros tempos de regresso à apicultura, fui colocando núcleos e algumas colmeias vazias em diferentes pontos de uma extensa zona de mato e montado, integrada numa zona de caça vedada, com o objetivo de capturar enxames que aí se instalassem espontaneamente. Esses enxames eram posteriormente recolhidos e transferidos para o meu apiário, situado na Chamusca.
Foi num desses núcleos que, um dia, encontrei uma colónia que imediatamente despertou a minha atenção.
Tratava-se de um enxame de abelhas de coloração marcadamente amarela, cuja rainha apresentava igualmente uma tonalidade amarela muito evidente.
A diferença em relação às restantes colónias que possuía era notória.
Aquelas abelhas revelavam um comportamento que me chamou imediatamente a atenção: eram particularmente dóceis, apresentavam um desenvolvimento equilibrado, demonstravam boa capacidade produtiva e, sobretudo, uma reduzida tendência para a enxameação.
A minha primeira reação foi naturalmente procurar saber que tipo de abelhas seriam aquelas.
Perguntei a vários amigos e apicultores que conhecia e as opiniões dividiram-se. Alguns diziam tratar-se de Buckfast; outros apontavam para Ligustica italiana.
Eu próprio não tinha, naquele momento, uma resposta segura.
Mas havia uma coisa que já tinha percebido:
aquelas abelhas eram diferentes.
E foi precisamente essa diferença que despertou a minha curiosidade e me levou a iniciar uma pesquisa cada vez mais aprofundada sobre a sua possível origem e sobre a genética Buckfast.
A descoberta da Buckfast
Aquela colónia ficou desde então sob a minha observação.
Quanto mais a acompanhava, mais evidente se tornava que estava perante algo diferente das abelhas que até então conhecia. A sua mansidão, capacidade de desenvolvimento, produtividade e reduzida tendência para a enxameação despertaram em mim uma curiosidade que rapidamente se transformou numa vontade de perceber a sua verdadeira origem.
Comecei por procurar respostas junto de outros apicultores. As opiniões, como já referi, não eram consensuais: uns identificavam aquelas abelhas como Buckfast, enquanto outros consideravam que poderiam tratar-se de Ligustica italiana.
Decidi então procurar a resposta por mim próprio.
Comecei a ler e a pesquisar tudo o que encontrava relacionado com aquelas abelhas, procurando compreender as diferenças entre as diversas populações de Apis mellifera, os seus métodos de criação e, sobretudo, a origem e a história da abelha Buckfast.
Foi nesse processo que descobri o trabalho extraordinário desenvolvido pelo Irmão Adam, na Abadia de Buckfast, e a sua filosofia de seleção através do cruzamento de diferentes populações de abelhas, seguida de uma seleção rigorosa ao longo das gerações.
Quanto mais aprofundava o conhecimento sobre a Buckfast, mais características encontrava que correspondiam àquilo que observava naquela colónia.
A investigação levou-me também a tentar perceber de onde poderia ter vindo aquela genética. Mais tarde, vim a saber que o enxame que se instalara naquele núcleo tinha origem num apiário de um apicultor espanhol que trabalhava com abelhas Buckfast, situado numa zona considerada isolada para efeitos de acasalamento e que, embora não fosse muito próximo, se encontrava a uma distância relativamente reduzida do local onde eu tinha colocado os meus núcleos.
Aquela descoberta permitiu finalmente estabelecer uma ligação entre a colónia que me tinha despertado a atenção e o mundo da genética Buckfast.
O que começou por ser apenas a captura ocasional de um enxame acabou, assim, por abrir a porta a um universo que até então desconhecia.
A partir desse momento, a minha relação com a apicultura começou a mudar.
Deixei de procurar apenas enxames. Comecei a procurar genética.
Da curiosidade à seleção genética
A partir desse momento, a minha relação com a apicultura mudou.
Deixei de olhar para as abelhas apenas como colónias produtoras de mel e comecei a olhar para elas também como material genético que pode ser selecionado, preservado e melhorado ao longo das gerações.
Comecei a procurar criadores especializados e a estudar pedigrees, linhagens e métodos de acasalamento.
Progressivamente, fui estabelecendo contacto com criadores de referência e adquirindo material genético proveniente de diferentes programas de seleção.
Entre as linhas que hoje integram o meu projeto encontram-se descendências ligadas a algumas das linhas históricas desenvolvidas a partir do trabalho do Irmão Adam, que continuaram a ser preservadas, selecionadas e desenvolvidas por diferentes criadores ao longo das gerações.
Cada um destes criadores representa um percurso próprio dentro da criação Buckfast, com diferentes linhas, combinações genéticas e critérios de seleção.
É precisamente essa diversidade, aliada a uma seleção criteriosa, que considero fundamental para construir um programa genético sólido.
Mais do que comprar rainhas
Ao longo deste percurso percebi que adquirir uma rainha de qualidade é apenas o início.
É necessário conhecer a sua origem, compreender o pedigree, saber de que linhas provém a sua ascendência, conhecer o método através do qual foi fecundada e, sobretudo, observar o comportamento da sua descendência.
Uma rainha pode ter um pedigree extraordinário, mas é a sua descendência, geração após geração, que permite avaliar verdadeiramente o valor de uma determinada combinação genética.
É por isso que o meu trabalho não se limita à aquisição de rainhas.
Procuro construir um programa próprio de criação e seleção, no qual as diferentes linhas são avaliadas pelo seu comportamento e pelo seu desempenho nas condições do meu apiário.
A filosofia do projeto
As minhas abelhas integram linhas Buckfast que têm vindo a ser selecionadas, trabalhadas e testadas em Portugal ao longo dos anos, com especial atenção à sua adaptação às nossas condições. Este trabalho continuado de seleção e avaliação tem permitido identificar e preservar características de elevado valor, como a produtividade, a docilidade, a rusticidade, a capacidade de invernagem e o comportamento higiénico.
É precisamente nesta seleção realizada e comprovada em condições portuguesas que assenta uma parte importante do valor das abelhas que disponibilizo. A avaliação geração após geração, nos nossos apiários e perante as nossas condições ambientais, permite trabalhar com uma Buckfast que não é apenas geneticamente selecionada, mas também testada e avaliada em Portugal, procurando oferecer colónias e rainhas de elevada qualidade e desempenho.
A minha seleção assenta em características que considero fundamentais para uma apicultura moderna e sustentável:
Nenhuma característica deve ser analisada isoladamente.
O objetivo é encontrar o equilíbrio entre diferentes qualidades e selecionar as colónias que melhor correspondem aos objetivos definidos.
Para isso, a genética é apenas uma parte do processo.
A outra parte é a observação.
Observar as colónias, comparar, registar, selecionar e voltar a reproduzir.
É um processo contínuo, geração após geração.
O projeto Apicultura Bucfast - Criação & Seleção
Foi deste percurso que nasceu o projeto Apicultura Bucfast – Criação & Seleção.
Um projeto que começou com uma paixão de adolescente pelas abelhas, que esteve adormecida durante muitos anos, e que regressou mais tarde com uma nova perspetiva, fruto da experiência de vida, da curiosidade e de um estudo cada vez mais aprofundado da genética Buckfast.
Hoje, o objetivo é continuar a aprofundar esse conhecimento e trabalhar com linhas Buckfast selecionadas, mantendo o foco na qualidade genética, na rastreabilidade das genealogias e na seleção das características que considero mais importantes para o apicultor.
As minhas rainhas F0 constituem a base genética deste trabalho. A partir delas, procuro desenvolver gerações sucessivas, avaliar os resultados e selecionar os indivíduos que melhor correspondam aos objetivos definidos.
Porque criar Buckfast não é simplesmente reproduzir abelhas.
É selecionar para a geração seguinte.
Um projeto em permanente evolução
A apicultura ensinou-me uma coisa que considero fundamental: nunca deixamos verdadeiramente de aprender.
As abelhas obrigam-nos a observar, a questionar e a adaptar-nos.
Por isso, este projeto não está terminado — e provavelmente nunca estará.
A aquisição de novas linhas, o estudo dos pedigrees, a utilização de diferentes métodos de acasalamento, a inseminação instrumental e a avaliação da descendência fazem parte de um caminho que continuará a evoluir.
O objetivo é simples na sua essência:
preservar genética de qualidade, selecionar as melhores combinações e construir, geração após geração, abelhas cada vez mais adequadas aos objetivos da apicultura moderna.
Foi assim que uma paixão começou num velho cortiço, em Anjos, Vieira do Minho.
E é assim que essa mesma paixão continua hoje, através da Apicultura Buckfast – Criação & Seleção.
Uma paixão de sempre.
Uma genética construída ao longo de gerações.
Um trabalho que continua.
Agostinho Carvalho

