Uma história que começou com o Irmão Adam

A história da abelha Buckfast está indissociavelmente ligada ao nome de Karl Kehrle, conhecido mundialmente como Irmão Adam.

Nascido na Alemanha, em 1898, Karl Kehrle ingressou ainda jovem na comunidade beneditina da Abadia de Buckfast, em Devon, Inglaterra. Foi aí que encontrou nas abelhas não apenas uma atividade monástica, mas uma verdadeira paixão e, posteriormente, o objeto de uma das mais notáveis experiências de criação e seleção genética da história da apicultura.

Em 1915, começou a trabalhar no apiário da Abadia. Pouco tempo depois, a chamada doença da Ilha de Wight, posteriormente associada ao ácaro traqueal Acarapis woodi, atingiu as colónias britânicas. Em 1916, o apiário de Buckfast perdeu a grande maioria das suas colónias: das 46 colónias existentes, apenas 16 sobreviveram. Entre as sobreviventes encontravam-se abelhas de origem italiana e carniolana.

Perante esta realidade, o Irmão Adam começou a procurar uma solução que não dependesse simplesmente da preservação de uma determinada população de abelhas.

A sua visão era diferente.

Pretendia combinar características desejáveis provenientes de diferentes populações de Apis mellifera e, através de cruzamentos controlados e seleção continuada, construir uma abelha adaptada às necessidades do apicultor: produtiva, dócil, resistente, saudável, com boa capacidade de invernagem e com reduzida tendência para a enxameação.

Nascia assim o princípio que viria a orientar toda a sua vida dedicada à criação de abelhas.

Uma abelha construída através da seleção

O trabalho do Irmão Adam não consistiu num único cruzamento que deu origem à Buckfast.

Durante décadas, ele estudou diferentes populações de Apis mellifera, procurando características específicas que pudessem ser incorporadas ao seu programa de seleção. Viajou extensivamente pela Europa, Norte de África e Médio Oriente, visitando regiões onde ainda se encontravam populações locais com características genéticas próprias.

Ao longo das suas viagens, procurou e introduziu material genético proveniente de diferentes origens. Entre as populações utilizadas no seu trabalho encontravam-se, entre outras, linhagens de Ligustica, Mellifera, Carnica, Anatolica, Cecropia, Cypria, Sahariensis e Monticola.

As viagens do Irmão Adam ultrapassaram os 100 000 quilómetros, numa procura contínua de material genético que pudesse contribuir para o desenvolvimento da sua abelha.

Mas encontrar uma determinada genética era apenas o princípio.

Cada introdução era submetida a cruzamentos, observação e seleção. As combinações que demonstravam características interessantes eram trabalhadas ao longo de várias gerações; aquelas que não correspondiam aos objetivos eram abandonadas.

Foi esta combinação de diversidade genética, cruzamento dirigido e seleção sistemática que permitiu construir progressivamente aquilo que hoje conhecemos como abelha Buckfast.

O controlo do acasalamento

Um dos aspetos fundamentais do método do Irmão Adam foi a necessidade de controlar, tanto quanto possível, o acasalamento.

Para isso, recorreu a locais isolados, nomeadamente em Dartmoor, onde podia trabalhar com populações de zangões previamente selecionadas. O isolamento permitia reduzir a influência de zangões provenientes de outras populações e tornar os cruzamentos muito mais previsíveis.

Esta preocupação com a origem paterna continua a ser um dos princípios fundamentais da criação Buckfast moderna.

A utilização de estações de acasalamento isoladas, ilhas, apiários de zangões selecionados e, posteriormente, inseminação instrumental, permitiu aos criadores aumentar progressivamente o controlo sobre os cruzamentos e desenvolver programas de seleção cada vez mais precisos.

Mais do que produção de mel

Para o Irmão Adam, uma boa abelha não deveria ser avaliada apenas pela quantidade de mel produzida.

A seleção incidia também sobre características fundamentais para o trabalho diário do apicultor: mansidão, comportamento no favo, reduzida tendência para a enxameação, desenvolvimento da colónia, resistência, capacidade de sobrevivência e produtividade.

O princípio era simples, mas extraordinariamente exigente:

não selecionar apenas a abelha que produz muito, mas a colónia que reúne um conjunto equilibrado de características desejáveis.

Foi através deste processo contínuo de avaliação e seleção que a Buckfast foi adquirindo a identidade genética que a tornou reconhecida internacionalmente.

Uma vida dedicada às abelhas

Durante mais de sete décadas, o Irmão Adam dedicou-se à apicultura e à criação seletiva.

O conhecimento acumulado ao longo desse período ficou registado em três obras fundamentais:

"Beekeeping at Buckfast Abbey" (1975)
"In Search of the Best Strains of Bees" (1983)
"Breeding the Honeybee" (1987)

Estas obras documentam não apenas a sua experiência prática, mas também a sua filosofia de criação, as suas viagens, as diferentes populações estudadas e os princípios de seleção e cruzamento que desenvolveu.

O seu trabalho alcançou reconhecimento internacional. Em 1974 recebeu a distinção OBE (Order of the British Empire) pelo seu contributo.

Aos 93 anos deixou a responsabilidade direta pelo departamento de apicultura da Abadia. Continuou, porém, ligado à sua obra e ao legado que havia construído ao longo de décadas.

O Irmão Adam morreu em 1 de setembro de 1996, aos 98 anos.

Terminava a vida de um homem, mas não o seu trabalho.

Depois do Irmão Adam

A morte do Irmão Adam não significou o fim da criação Buckfast.

Pelo contrário, o seu método e o património genético que construiu espalharam-se por numerosos países. Criadores europeus e de outras partes do mundo continuaram a utilizar as suas linhas e, sobretudo, os seus princípios de seleção, cruzamento e controlo do acasalamento. Estudos científicos confirmam que, após a sua morte, grupos de criadores continuaram a preservar e desenvolver a genética Buckfast através de programas de criação em ilhas e outros locais isolados.

Ao longo das últimas décadas, diferentes criadores introduziram novas linhas e combinações genéticas, sempre procurando responder às condições locais e aos objetivos específicos dos seus programas de seleção.

É precisamente esta capacidade de selecionar, combinar e voltar a selecionar que mantém a Buckfast como uma genética dinâmica.

A Buckfast de hoje não é, portanto, uma fotografia congelada da abelha existente em Buckfast Abbey durante a vida do Irmão Adam.

É o resultado de uma linhagem de criação contínua, construída sobre o trabalho original do seu fundador e desenvolvida por sucessivas gerações de criadores.

O legado continua

Hoje, a genética Buckfast encontra-se presente em numerosos países e é trabalhada por criadores especializados, muitos dos quais mantêm pedigrees e registos genealógicos das suas linhas.

Organizações como a G.D.E.B. – Gemeinschaft der europäischen Buckfastimker, bem como outras estruturas e criadores independentes, contribuem para a conservação e documentação das genealogias Buckfast. Paralelamente, a Karl Kehrle Foundation, criada para preservar o património do Irmão Adam, trabalha especificamente na conservação da documentação e na continuidade dos registos genealógicos da Buckfast a nível mundial.

Entre os criadores que deram continuidade aos princípios de seleção do Irmão Adam encontram-se nomes que se tornaram referências no mundo Buckfast, desenvolvendo programas próprios, preservando determinadas linhagens e criando novas combinações genéticas.

É uma cadeia que atravessa gerações:

Irmão Adam → seleção → preservação das linhagens → novos cruzamentos → avaliação → nova seleção.

E é precisamente aqui que começa o nosso trabalho.

O nosso compromisso

Acreditamos que criar Buckfast é muito mais do que produzir rainhas.

É conhecer a origem genética, compreender o pedigree, selecionar criteriosamente as matrizes, controlar os acasalamentos sempre que possível e avaliar o desempenho das colónias ao longo do tempo.

Seguimos uma filosofia baseada nos mesmos princípios fundamentais que tornaram possível a criação da Buckfast: seleção, diversidade genética, controlo reprodutivo e avaliação contínua.

Porque uma boa rainha não representa apenas uma colónia.

Representa a possibilidade de construir a geração seguinte.

Apicultura Buckfast — Criação & Seleção

Uma genética construída ao longo de gerações. Um trabalho que continua.